sexta-feira, 16 de março de 2018

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E se fosse contigo? - visão de uma cuidadora informal e Terapeuta



Jorge Gabriel foi atacado nas redes sociais pois o pai foi para um lar..


Eu pergunto-me: sabem as pessoas o que implica ser um cuidador informal.

Sabem o empenho que pede?
Sabem o sofrimento que causa?

Sabem que passam a cuidar de um bebe (com mau feitio e muitos passam a ter comportamentos de maldade) de cerca de 80anos?
Sabem que passam a ter que obrigar a pessoa a comer / beber / tomar medicação / tomar banho / vestir-se / ... ?

Sabem que havendo doenças mentais passam a ser maltratados de manhã  a noite?
Sabem que são ameaçados de tudo?
Sabem que não podem sair? Acabam os almoços e jantares.

Sabem que deixam de existir fins de semana?
Férias?  O que é isso?

Amigos, socializar?  Sim dá, 5min no supermercado quando encontras alguém.
Sabem que as saídas tem que ser feitas num máximo de 30 minutos. 

Sabem que tem que esconder as chaves da rua e dinheiro, para não falar em facas e objectos cortantes?
Sabem que tem que prender cão pois batem nele e ele em defesa pode atacar?

Sabem que não tem apoio de lado algum?
Sabem que nunca ninguém vos vai perguntar: precisas de alguma coisa? 

Sabem que os momentos de desabafo passam a ser com a médica que família que vos chama de corajosas e pedem para ter cuidado para não cair em depressão? 
Sabem que todos os outros vão mandar bocas do género "não pode ser assim; tens que fazer assado; faz assim". Mas ninguém vai dizer " deixa estar que agora eu estou aqui e eu ajudo".

Sabem que vão ser atacados por tomar decisão X e Y  em relação a saúde? Mas ninguém se oferece a ir ao médico resolver isso.
Sabem que os apanham do chão do desmaiados, a chorar, a sangrar?

Sabem que tem que chamar o INEM enquanto os tentam manter vivos?
Sabem que tem que telefonar as familiares mais próximos a avisar?

Sabem que ninguém vai telefonar no dia seguinte a perguntar se esta tudo bem? 
Sabem que tem que mudar fraldas, dar banhos e forçar alimentação? 

Sabem que deixem de dormir noites seguidas por a pessoa necessitar de apoio?
Sabem que acordam sempre que a pessoa tosse?
Sabem que tem que os ouvir a chorar e a dizer que querem morrer? Que são uns inúteis.

Sabem que tem que fazer um luto em vida?
Sabem que vão ser atacados por viver a custa deles pois não trabalham?

Sabem que não conseguem manter um trabalho? 
Sabem que ser cuidador é um trabalho de 24h sem qualquer recompensa ou reconhecimento? 

Sabem que passamos a viver numa dor infernal? 
Sabem que passamos a nos anular?

Sabem que nos sentimos sozinhos e desamparados?
Sabem que colocamos um sorriso quando nos dizem que estamos a fazer o certo mas por dentro só queremos chorar e berrar?


Eu tenho 30 anos e sou uma cuidadora informal.
É justo me anular para cuidar?
Sou um cuidadora é certo. Mas será justo?

Eu trabalho na área e espiritual e tenho uma visão mais ampla de tudo, mas tenho igualmente um desgaste maior. Tenho um desgaste profissional combinado com um desgaste pessoal, não dá minha vida mas por cuidar.
E muitas vezes o meu cansaço os meus desabafos de dor e tristeza prendem-se a esta dor que vivo diariamente. Vivo em pleno conflito com a minha essência que pede libertação e que pede transmutação e eu prendo-a a uma rotina de amor e dedicação.

É justo?

Claro que não é. Mas é a realidade. É a minha realidade e a realidade de centenas de cuidadores (homens e mulheres) que se dedicam de alma e coração aos seus. Que se anulam, que se moem, mas que tem que ouvir que estão a fazer o certo. Isso dói mais do que possam imaginar.


Não digam que fazemos o certo pois isso já nós sabemos, pois temos consciência e um coração cheio de amor,  mas só nós sabemos a dor que isso nós causa.
Perguntem antes se estamos bem.

Perguntem antes se precisamos de ajuda.
Estejam lá.
Apoiem-nos.
Não fiquem a espera que a gente peça ajuda.


A verdade é que já pedi ajuda varias vezes e nada mudou.. deixem lá isso. 


Entendam só.

Abram os olhos e entendam a realidade dos que cuidam e dos que são cuidados.
Não apontem o dedo ou critiquem quem coloca pais e avós num lar, as vezes é simplesmente o render a dor, o não aguentar mais, o se libertar.

Não é justo essa pessoa se libertar?
Não é justo essa pessoa viver?
Tentem ver o que está por detrás.


Vamos ser realistas: nós perdemos muito mais do que ganhamos. É um trabalho recompensador? Talvez, se a anulação total passar pela missão de vida.

Um bem haja a todos os cuidadores que todos os dias de manhã acordam e se sentam na beira da cama a respirar fundo e com os olhos cheios de água pois tem que enfrentar mais um dia de luta inglória. Pois o final e a derradeira libertação será uma dor ainda maior.


Ah e sim, eu sou Terapeuta, cuidadora, curadora e SIM eu reconheço e sinto a minha dor! Falo dela sem medos! Sinto-a totalmente. Deixo que ela me leve ao limite e aí quando não aguento mais peço que seja libertada. E aí começo o processo de cura da ferida. E sei que no dia a seguir acordo mais forte. 
Não tenham medo de falar ou sentir as vossas dores e limitações pois são elas que vós tornam mais fortes. 

Com Claridade e Persistência,
Joana Cristina Pinto

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